Uma pequena história de ficção:
Nossa instituição decidiu implementar EaD. A ordem veio de cima: “Precisamos implementar EaD para sobreviver no século 21!”. Ninguém além do autor entende bem qual foi o sentimento que culminou em tal frase dramática. Seria a vontade de desenvolver mudanças na raiz de nossa universidade em um curto período de tempo? Ou nossas matrículas do ensino presencial estão caindo por conta do volume crescente de pessoas que optam pela modalidade de EaD da universidade concorrente? Ou seria apenas para não ficar de fora dessa nova “moda”? Como disse anteriormente, apenas o autor da frase conhece o verdadeiro motivo.
No dia seguinte reuniu-se a equipe que irá fazer a mágica acontecer. Diversos professores prontos para a primeira reunião onde será discutido o que para nós é estratégico para o EaD: a infra-estrutura! Qual será o nosso software e onde ele ficará. “Definir isso é crucial para nosso EaD!” Então passamos meses e as vezes anos discutindo sem chegar a um consenso. Não conseguimos definir entre Moodle, Blackboard ou se incrementamos nossa intranet. A mesma dúvida ocorre entre um servidor interno ou externo. E assim o tempo passa.
Nova ordem superior: “Seis meses para a implantação do primeiro curso! Ou vai ou racha.”
É um verdadeiro caos! Para piorar a situação, nosso antigo coordenador de EaD não aguentou a pressão e pediu afastamento. Já não é mais o primeiro a se afastar. O novo coordenador mal chegou e já está na fogueira! Precisamos definir a nossa infra-estrutura e temos 6 meses para implementá-la. Vai ser Moodle e o servidor será interno com um estagiário de computação atuando como responsável de TI. Não dá mais tempo para outro tipo de solução!
O que falta agora? Conteúdo! Escreve aí professor, e seja o que Deus quiser!
Pane no sistema! Tinha backup? Não… e agora? Paciência.
Professor, cadê o conteúdo? Como não deu tempo? Como você não sabe como deve escrever?
E assim os dias seguem, apagando incêndios diários até o dia em que finalmente, o curso sai do papel. Infelizmente ele reflete todos os problemas que tivemos no desenvolvimento e é percebido como um curso mediano, sem brilhantismo e cheio de problemas (detectados e ainda não detectados) que serão corrigidos (ou não) no decorrer do curso.
O exemplo fictício dado acima é caótico, desesperador e reflete a falta do pensamento sistêmico no planejamento e execução de um curso de EaD. Pode em algum nível ter acontecido com a sua equipe e parabéns caso você tenha conseguido imaginar os impactos positivos ou negativos que cada ação gera no sistema.
Uma grande armadilha do projeto de EaD é investir tempo e recursos em demasia para a infra-estrutura do ambiente virtual. Assim como um curso presencial não é uma sala de aula, o curso a distância não é o ambiente virtual. As expectativas dos usuários em relação ao AVA são simplesmente usabilidade e recursos pedagógicos adequados. Em relação ao servidor, tem que ser rápido e ficar disponível 100% do tempo. Pouco importa a “marca” do AVA ou onde ele estará hospedado desde que atenda a esses requisitos.
O AVA é uma ferramenta básica para o sucesso do ensino a distância nos dias de hoje, porém não é crucial para o EaD. Defino como crucial as ações que se não forem tomadas, o curso não sai do papel. Claro que ninguém é louco a ponto de riscar o AVA da lista de prioridades em EaD, mas afirmo baseado no fato de que o EaD precede a internet, como no caso do Instituto Universal Brasileiro.
Cruciais são Forma, Conteúdo e Canais de Distribuição. O AVA é provavelmente o principal Canal, mas não é a essência do EaD. Não é para navegar na internet que um estudante paga a mensalidade e sim para aprender. O seu objetivo é o conteúdo, e esse está em posse dos professores. O conteúdo precisa ser extraído, organizado e dosado. Papel do próprio professor em conjunto com o Designer Instrucional. Em seguida ele precisa ser formatado para a(s) mídia(s) definida(s) como mais apropriada(s). Papel dos Designers Instrucionais e Gráficos. O próximo passo é entregá-lo nas mãos dos estudantes. Só aí o AVA e o sistema de logística (para distribuir mídias físicas como DVD’s e livros) entram em ação.
Ainda estamos num cenário muito cru em EaD, mas logo não haverá mais espaço para a mediocridade e o improviso. Com um projeto de EaD desenvolvido desde o início para a sobrevivência, observando apenas a infra-estrutura do AVA, a sua universidade conseguirá apenas isso: sobreviver! Somente prosperará quem atender com excelência TODOS (com letras garrafais) os elementos cruciais e estratégicos do projeto.
Grande abraço.